O Surf é nítido desde o primeiro momento em que você põe os pés na cidade, seja por meio das placas de trânsito infestadas com adesivos de todas as marcas, ou pelos carros e bicicletas que passam sem nenhuma timidez, com suas pranchas a tiracolo, preparadas para sentir o gosto de água salgada.
“Viajar sozinho tem seus pontos ruins, mas tem outros muito bons. Você é livre pra fazer o que quiser, a hora que quiser e fica meditando em seus pensamentos a quase todo momento. Conhecer outras pessoas também é diferente quando você está sozinho. Pra viajar sozinho é preciso ter a mente aberta e querer conhecer o mundo, as ondas, com seus próprios olhos e pés, são as coisas que você não pode deixar de levar na sua mochila. Boa Viagem!” LONE RIDER
Chegando em Jeffrey’s
Meus primeiros dias foram de total descoberta. Um lugar novo, cultura nova, pessoas novas e eu ali, sozinho e pilhado. Depois da longa viagem, cheguei quebrado e precisando de um banho pra trocar as energias. Lembro como se fosse hoje do cansaço e da vontade de ver aquelas ondas de perto. Depois do banho, nem arrumei minhas coisas direito e já fui ver como estava o mar, curioso para saber como era aquilo tudo. Do albergue ao píer em poucos segundos e logo estava de frente pra aquele mar lindo, com as ondas funcionando perfeitamente. Estava sol, com um vento forte e gelado, característico em J. Bay, as ondas tinham de 4 a 6 pés e os surfistas faziam a festa na água.
As condições estavam ótimas. Apesar do cansaço, voltei pro albergue e resolvi pegar a câmera e registrar meus primeiros momentos por lá. Meio tímido e com um respeito pelo lugar, resolvi fotografar do píer mesmo e analisar as condições e novos lugares onde eu poderia fotografar nos outros dias. Depois, descarregar as fotos no computador, louco pra saber o resultado. Com algumas boas fotos já no primeiro dia, me animei pra acordar cedo nos próximos e começar o trabalho desde cedo. Como a rua é de acesso para o pico, depois das 18h fica completamente vazia, sem movimento algum. Sem barulho e sem movimento, não há muitas coisas para se fazer a não ser ler um livro ou ouvir um bom som. Por isso, estar na cama antes das 21h é quase obrigatório.
As ondas
O litoral de J. Bay é repleto de boas ondas, tanto beach-breaks como point-breaks, apesar disso, a região mais procurada é a de Boneyards até The Point, passando pela notável e mais conhecida, Supertubes. Boneyards é um beach-break que quebra ocasionalmente com suas esquerdas. The Point é um point-break que fica logo abaixo de Supertubes. The Point tem uma onda mais tranquila que Supertubes, por isso é frequentemente visitada pelos surfistas mais amadores. Supertubes, com certeza, o sonho de qualquer surfista, uma das melhores direitas do mundo, gelada e rápida, ela surpreende com os canudos que cria e em dias grandes, arrasta uma multidão para o píer que fica a sua frente, além de carregar os surfistas por muitos e muitos metros. A onda começa quebrando entre a junção de Supertubes e Boneyards e se você tiver sorte, pode ir com ela até Point, pegando vários tubos, um seguido do outro. Kelly Slater que o diga.
Onde se entocar
Em J. Bay são inúmeras as opções de hospedagem: hotéis, resorts, albergues, campings, trailer... Existe um leque de opções para escolher. Para os mais fissurados, a Pepper Street é o lugar. A rua é a de único acesso a Supertubes e é onde se encontra até 4 Guest Houses e mais 4 albergues. Os preços são convidativos e é possível ficar em um albergue de primeira qualidade com aluguel de prancha e roupa de borracha por apenas 20 reais diários.
Flat pra admirar a vida
Após os primeiros cinco dias, um flat atingiu J. Bay. Dia livre pra dar um rolê pela cidade, a pé mesmo, ver lojas, lugares, pessoas. Nos primeiros dias, sem conhecer ninguém, foi até meio complicado nos momentos de ócio. Lia um livro, mas pirava de não ter algo mais, então ia sentar nos bancos de madeira do píer e ficava ali, tomando um vento, pensando na vida e olhando pro mar. Hora ou outra, via algumas baleias passando no outside, erguendo suas barbatanas como dando as boas-vindas. A felicidade que eu sentia com isso era imensa e eu ficava admirando-as enquanto imergia em meus pensamentos.
Swell a caminho
Após o flat, o tempo começou a virar e o sol que estava por ali sempre, aparecia cada vez com menos frequência. As rajadas de vento aumentavam e o tempo nublado, quase chuvoso, gelava tudo. Conversei com algumas pessoas que disseram que aquilo era sinal do swell chegando e não era um simples swell, a previsão era do maior swell do ano. Fiquei pilhado, meio sem saber o que esperar, pois nunca tinha visto ondas muito grandes.
Mais dois dias se passaram e o dia seguinte era o dia D. Para tentar diminuir um pouco a ansiedade, lia (estava lendo o livro Outras Ondas, do Fred D’Orey) e o último capítulo lido naquela noite tinha sido um onde ele cita a fissura do surfista, essa adrenalina misturada com ansiedade que sentimos antes de um grande swell.
No dia seguinte, levantei bem cedo, estava às 6h35 na cozinha, com a xícara de café na mão e o pão quase pronto, quando vejo um pequeno ser e sua prancha saindo correndo pelo portão da Guest House em frente ao albergue. Comecei a rir, lembrando do capítulo do livro e logo reconheci o surfista apressado, era Dean Morrison, o aussie ostentava uma longa barba e pela expressão em seu rosto (e como corria) parecia ter visto uma coisa insana da janela do quarto.
Jeffrey’s Bay “full Power”
Comi o pão apressadamente, nem pronto ele estava direito, e fui lá pra fora ver se era tudo isso mesmo. Realmente, era tudo isso, e mais! O mar tava gigante, tinha entre 8 e 10 pés, com algumas séries maiores. Eu fiquei parado por alguns instantes, com a xícara de café na mão, admirando a força da natureza. Estava um terral muito forte, que levantava a crista da onda, deixando a coisa toda mais bonita. Jeffrey’s nesse tamanho alcança uma perfeição incomparável e pode-se inferir no porque é chamada de “a direita mais perfeita do mundo”. As imagens podem falar sobre isso mais do que eu...
Circo da ASP invade a cidade
Após essa primeira semana, já estava mais familiarizado com o ambiente e já me sentia um sul-africano. As pessoas começavam a chegar e garantirem seus lugares para assistir a uma das etapas mais tradicionais do WCT. A equipe da Billabong ficou hospedada no mesmo albergue que eu, surfistas como Heath Joske, Torrey Meister, Granger Larsen, Keanu Asing, Wade Goodall e outros compunham o time da Billabong. Durante o Billabong Pro conheci muita gente, o que foi uma experiência marcante. Parko ganhou o evento, surfando muito todas as baterias. A oportunidade de ter visto esses caras surfando foi animal, rendeu ótimas fotos e bons momentos. As noites já não eram tão silenciosas, bebendo cerveja no andar de cima do albergue se tornou normal e a galera toda ficava trocando ideia. Junto com o WCT, conheci alguns brasileiros que estavam de passagem, eles voltavam da Indonésia. Ficava conversando, querendo saber mais de lá e vendo as fotos, alucinantes!
Após a tempestade...
Após o evento, o que era cheio de pessoas se tornou novamente tranquilo e com poucas pessoas. Já não tinha mais o que ler, pois o livro havia sido devorado em poucos dias. Eu me ocupava admirando o céu, que durante a noite era negro e bem estrelado, diferente aqui do Brasil. Era possível ver milhares de estrelas, a lua gigante iluminando tudo e o barulho das ondas... Era mágico! Cada manhã era diferente, o nascer do sol atrás das montanhas, a água iluminada pelos primeiros raios do sol e eu lá, com minha xícara de café, sempre a postos pra não perder esse show que a natureza dava tanto no início do dia, como no final. Os finais de tarde eram singulares, sejam pelos golfinhos e baleias que atravessavam a baía, pelas ondas, as diversas cores no céu durante o pôr do sol ou por qualquer outro motivo. Eram momentos nos quais cada um vive intensamente no seu íntimo e que fazem algo surgir dentro de nós. A natureza é espetacular e em J. Bay você a percebe em todos os lugares.
J. Bay é mágica, roots e cheia de energia. Um lugar que você vai voltar querendo não ter que voltar pra casa. Um lugar onde você, com certeza, vai querer ir de novo e de novo. Sabendo de toda história da África do Sul e da África em si, berço da humanidade, a viagem se torna mais intensa e em busca das melhores ondas, o surfista acha a si mesmo.
Vida Simples, Mente Elevada.
Matéria publicada na PARAFINAmag Edição 22