Imagine esta cena. Você chega em casa certo dia e mais uma vez diz pra sua namorada/esposa/companheira/tico-tico-no-fubá/whatever:
- Gata, fechei uma trip com a galera, mês que vem vou pra conchinchina pegar umas ondas porque preciso dar uma desestressada...
A resposta, logicamente, pode vir em várias formas, tamanhos e graus de periculosidade. Garrafas, copos de café fervendo, pau de macarrão, ou mesmo a mais preocupante indiferença (que provavelmente você já vem cultivando há algum tempo pelas seguidas trips onde só cabem você e alguns dos seus camaradas de batalha).
Agora pense diferente. Vamos dizer que a gata é especial, e merece mais do que ficar acompanhando suas aventuras pelo Facebook enquanto trama com as amigas a doce vingança por ter sido deixada – mais uma vez – sozinha e chupando o dedo (...)
Pois foi exatamente o que eu decidi fazer desta vez. Nada de viajar com os brothers pra um buraco (ou vários) low budget pra pegar altas e voltar de cabeça feita. Quer dizer, deixa eu fazer uma pequena correção: Ainda assim dá pra pegar ALTAS ONDAS.
Vamos aos fatos. Já faz algum tempo desde a última vez que eu e minha esposa viajamos sozinhos (eu e ela, fique bem claro) pela última vez. Mais precisamente 7 anos, desde que nossa filhota nasceu. Então por que não unir o inútil ao desagradável??? Aproveitar pra curtir uns dias de ondas e descanso, e convidar a dona patroa pra vir junto!
Decidido o destino, decidida a data, faltava decidir o esquema. E vamos combinar: pode ser bem interessante ficar em barraca ou em uns buracos duvidosos quando você está só com os companheiros de guerra, mas quando se trata de agradar a pessoa que está contigo na hora dos perrengues do dia a dia, o negócio tem que ser mais caprichado, digamos assim.
A Costa Rica é banhada pelo Atlântico e pelo Pacífico, com quilômetros e mais quilômetros de praias lindas + ondas de excelente qualidade. Porém poucos lugares têm a estrutura de hotéis e pousadas de qualidade como a região de Tamarindo, na costa norte do país, no lado do Pacífico. E mesmo lá, uma microrregião se destaca em termos de estrutura, onde ficam vários condomínios de luxo cujo público-alvo principal são os norte-americanos (aliás, vale ressaltar que eles são maioria absoluta entre os turistas que visitam a Costa Rica e já se tornaram proprietários da maioria dos principais estabelecimentos comerciais e propriedades ao longo da costa).
É nesta região, um pouco ao sul de Tamarindo, que fica o condomínio que escolhemos pra descansar nossa querida ossada, chamado de Hacienda Pinilla, uma antiga fazenda transformada em um condomínio com vários quilômetros de estradas asfaltadas, diversas “villas” e condomínios residenciais, um campo de golfe com 18 buracos, hípica, dois hotéis, e (pra mim o principal “ponto turístico” do lugar) um clube de praia em Avellanas, uma praia com ótimas ondas, sendo as principais um point break de direitas em frente ao clube (Little Hawaii) e um beach break com um pico de direitas e esquerdas de excelente qualidade em frente a uma saída de rio. Infra de primeiro mundo, praias paradisíacas, piscina com borda infinita, sombra e cerveja gelada em frente ao pico. Precisa mais?
Os dois hotéis que ficam dentro do condomínio são:
- JW Marriot Guanacaste, típico hotel de beira de praia com quartos que vão do pequeno apartamento banheiro-cama-janela à suíte presidencial (haja bolso) e lotado de turistas americanos, a maioria passando por lá suas férias com seus equipamentos de golf;
- La Posada (nossa opção), um hotel menor e (na minha opinião) mais aconchegante, mais procurado pelos costa-riquenhos pela configuração familiar de suas “habitaciones”. Fica a 3 minutos de carro do beach club, e tem um serviço de leva-e-traz para onde você quiser ir dentro do condomínio. São diversas casas térreas com quartos espaçosos que acomodam até oito pessoas confortavelmente em camas king/queen size e com toda a infra de uma casa normal, algumas inclusive com fogão. Não que você tenha muita vontade de cozinhar, pois os restaurantes dentro e fora do condomínio são muito bons e com preços muito acessíveis.
Well, é muito legal poder jogar golfe, tênis, andar a cavalo, fazer caminhadas, trilhas, blábláblá, mas e o ponto principal – as ondas? Aí é que está o ponto bom da equação! Você se instala confortavelmente, pode levar esposa – e filhos, se estiver a fim, pois o lugar é totalmente família – e ainda tem uma ótima gama de ondas world class a seu dispor em toda a região (além dos picos que ficam dentro da “hacienda”) sem ter que ficar gastando horas e horas dentro de um carro. Vamos a elas (veja a localização no mapa ao lado):
Em Tamarindo
Playa Grande – Beach break com aproximadamente 2 km de extensão com várias valas de esquerda e direita, bom lugar pra fugir do crowd (quanto mais ao norte da praia, menor a aglomeração), porém sem a consistência dos fundos de pedra da região. Melhores condições com maré subindo/alta e vento terral;
Rivermouth – Excelente beach break de direita na boca do rio que corta a cidade, com as condições corretas – ondulação de oeste, maré subindo/cheia, vento terral - pode proporcionar ondas longas e manobráveis com excelente parede para todos os tricks que você tiver na manga;
Pico Pequeño – uma pequena formação de pedras vulcânicas no meio da praia (ao sul de Rivermouth) que quando rola de gala proporciona altos tubos. Melhores condições com ondulação de oeste e meia maré;
Old’s Man – pico especial para longboarders & paddle boarders, direitas e esquerdas excelentes pra um surf no bico e outros truques do classic longboarding, rola melhor com meia maré e vento terral;
Playa Langosta – beach break com vários picos de esquerda e direita, meio crowd na temporada de férias mas com uma boa quantidade de ondas para fazer a cabeça. Onda cavada, melhor com ondulação de sudoeste, maré enchendo/alta e vento terral;
Ao Norte de Tamarindo
Witches Rock – Acesso apenas via barco, que pode ser contratado em Tamarindo. Beach break com aproximadamente 3 km de extensão, com ondas bem cavadas e tubulares, melhor com ondulação de oeste/sudoeste e maré enchendo/alta;
Ollie’s Point – Acesso apenas via barco, assim como Witches Rock. Point break de direitas sobre um fundo de pedras tranquilo, em suas melhores condições – ondulação de sul/sudoeste e meia maré secando – pode proporcionar uma onda oca e extremamente fun.
Ao Sul de Tamarindo
Avellanas – Praia extensa, porém com dois picos principais: um ótimo break misto de areia e pedras com direitas e esquerdas longas na boca de um rio, e um point break de direitas muito relax ao norte do rio (Little Hawaii), em frente ao beach club do condomínio Hacienda Pinilla. Funcionam melhor na meia maré, com vento terral e ondulação oeste.
Playa Negra – Segundo muitos locais, uma das melhores direitas da Costa Rica. Localizada a aproximadamente 12Km ao sul de Tamarindo, nas condições ideais é garantia de tubos e mais tubos em cima de um fundo de pedras, que pode assustar um pouco aos menos experientes na maré baixa. Funciona com ondulações de qualquer direção, melhores condições com meia maré baixando e, lógico, com vento terral.
Existem outros picos mais afastados, seguindo de carro em direção ao sul do país, mas que valem uma menção (e para os mais fissurados, uma viagem um pouco mais longa), tais como Nosara, Mal-País, Hermosa, Dominical e Pavones, esta última um point break de esquerda com ondas longas – nos melhores dias você pode pegar ondas de 3 minutos! - e muito manobráveis. Pra ir a este pico o melhor é planejar bem e acompanhar a previsão de ondulações, pois por estar dentro de um golfo recebe apenas ondulações de sul/sudoeste. Pode ficar flat por semanas...
COMO CHEGAR
Nenhuma companhia aérea voa diretamente do Brasil para a Costa Rica atualmente, porém existem diversas alternativas de rotas a serem feitas, as mais comuns via Peru, Panamá ou mesmo Miami.
Para Tamarindo a melhor opção é pegar um voo que ofereça uma rota com chegada ao país via Libéria, cidade próxima onde existe um pequeno aeroporto que, apesar de seu tamanho e infra de pequeno porte, operam voos internacionais. Se você conseguir, vale a pena porque encurta bastante a viagem em comparação com a segunda opção, que seria uma rota até San José (capital da Costa Rica), saindo de lá com um carro alugado e dirigindo por mais 5 horas até Tamarindo. Existe ainda uma terceira opção, que seria viajar até San José e pegar um outro voo direto até o pequeno aeroporto (na verdade uma pista de terra batida dentro de uma pequena fazenda) de Tamarindo. Vale muito pela vista que se tem da região na chegada, porém tem um pequeno inconveniente: o avião é pequeno (um bi-motor) e dificilmente você conseguirá convencer os caras a embarcar tuas pranchas.
Eu tentei a primeira opção, mas todos os voos via Libéria estavam lotados nas datas que eu pretendia, e como não estava a fim de ficar carregando nem pranchinha nem pranchão nem – MUITO MENOS – o meu SUP, minha opção acabou sendo a terceira. Pegamos um voo no Rio de Janeiro, trocamos de avião no Panamá e mais uma vez em San José. Descemos em Tamarindo e o pessoal da locadora estava nos esperando no aeroporto pra entregar nosso automóvel, então foi só passar em uma das várias surf shops da cidade e alugar um SUP. Valeu cada centavo dos USD 220,00 que paguei pelo aluguel de uma semana (remo e leash incluídos – veja tabela completa de taxas de aluguel no quadro ao lado), só por ter evitado o perrengue de carregar, embarcar, desembarcar, carregar, embarcar e desembarcar novamente esse trambolho... Isso sem contar que as cias aéreas internacionais ainda cobram pra embarcar pranchas.
No geral foram dez dias muito bem aproveitados, sendo que desta vez O CASAL voltou pra casa com a cabeça feita.
E para os mais abonados, fica a dica: dentro da Hacienda Pinilla um terreno de 1000 m2 custa aproximadamente USD 1milhão. Já uma Villa de 120m2 (tipo de apartamento) custa a partir de USD 800mil, e existem algumas casas de gringos “meio” quebrados à venda, sempre existe a chance de encontrar uma pechincha por uma mansão. Eu certamente vou comprar alguma coisa por lá. Falta apenas uma coisinha básica: dinheiro. Mas quando eu ganhar na mega sena, pode me procurar que eu estarei por lá vivendo a PURA VIDA!
Matéria publicada na PARAFINAmag Edição 39