Portugal em Foco!
SUPERTUBOS
por Cedric de Barros

 

A cidade de Peniche está localizada numa península com cerca de dez quilômetros de extensão. A costa, que tem aspectos surpreendentes e deslumbrantes, é formada por imponentes rochedos e extensas e belas praias que chegam a atingir vários quilômetros. A oeste da península de Peniche, no meio do Atlântico, ergue-se o arquipélago da Berlenga, uma reserva natural onde se encontram espécies raras de flora, aves e peixes que tornam muito interessante a visita. 

Durante muitos anos, a principal atividade econômica deste lugar foi a pesca. O porto de Peniche é um dos principais portos de pesca portugueses. Encontra-se atualmente em estudo a hipótese de existirem fontes de energia não renovável nestas águas, sendo provável a exploração de petróleo dentro de poucos anos ao largo da costa.

Desde as magníficas praias existentes ao longo de todo o litoral, ao imponente patrimônio cultural, onde se destacam as fortificações e monumentos religiosos, Peniche apresenta uma diversidade de recursos turísticos onde se inclui uma gastronomia rica e variada dominada pelos pratos de peixes e mariscos, e um artesanato diversificado, onde se destacam as famosas Rendas de Bilros. 

A região de Peniche oferece diversas formas de alojamento, desde unidades de turismo no espaço rural, até hospedarias, parques de campismo e modernos hotéis. 

Portugal sempre foi um destino para o surf. Suas excelentes ondas, seu clima, sua gente... 

Uma costa toda voltada para o Oceano Atlântico, com muitas alternativas.

Antes do euro era muito barato viajar para Portugal. Hoje em dia ficou bem mais caro, mas além disso, se compararmos com seu país vizinho, a Espanha, ainda segue mais barato fazer um surfari a Portugal.

Antes as estradas tampouco eram boas, mas com a entrada na zona do euro, Portugal melhorou muito sua infraestrutura e, hoje em dia, as estradas portuguesas estão entre as melhores da Europa. O único inconveniente são os pedágios, que são bem caros. Até pouco tempo atrás, nenhuma onda portuguesa fazia parte do World Tour, mas a qualidade de suas ondas e o progresso de atletas, como Tiago Pires, demonstram o excelente trabalho que este pequeno país esta fazendo com o esporte.

Também poderíamos dizer que Portugal entrou no tour um pouco graças à ajuda da famosa onda de Mundaka, uma onda caprichosa - que fazia parte do WCT - de alta qualidade, mas que precisa de condições bem precisas para quebrar, o que a faz bastante irregular. Cansados desta irregularidade, tanto os pros como a organização, decidiram mudar a segunda etapa européia do tour para um lugar mais constante e com mais variedade de ondas.

E foi ai que Portugal passou a fazer parte outra vez do WCT. 

O lugar escolhido não foi a famosa cidade de Ericeira, epicentro do surf português, e sim Peniche, uma pequena cidade encravada numa península ao norte de Lisboa e que esconde um dos maiores tesouros portugueses, Supertubos

Supertubos, uma das ondas mais famosas da Europa, está localizada nesta pequena cidade de pescadores. Uma pacata cidadezinha que vivia da pesca, e que pouco a pouco entrou no mapa dos surfistas globetroters. 

Peniche está rodeada de ondas para todos os gostos e direções de ventos. São beach breaks, reefs, point breaks, e tudo isso em poucos quilômetros, um verdadeiro paraíso para os surfistas. Hoje em dia encontra-se por lá uma enorme variedade de surf camps e surf schools.  

E claro, sua onda mais famosa fez com que o surf crescesse tanto que virou um atrativo turístico para este pequeno vilarejo. Como seu nome indica, os tubos rolam soltos (é a onda mais parecida com Puerto Escondido, no México, que já vi). É uma onda bastante irregular,  mas quando rolam, os tubos são quadrados e amplos. Por esse motivo, o WT resolveu mudar a segunda etapa da perna européia para esta pacata cidadezinha. E não erraram, pois durante estes últimos dois anos, rolaram altas ondas. E quando não é Supertubos a onda principal do evento, é Lagido, Baleal ou algumas das outras inúmeras ondas que vão estar rolando perfeitas. Foi uma escolha acertada, que está fazendo com que Portugal esteja presente no cenário mundial do surf. 

As fotos que acompanham esta matéria não são do World Tour, pois ainda não tive a oportunidade de ir assistir ao vivo o contest (este ano pretendo não falhar).

As fotos são do ano que fui acompanhar o team Billabong durante uma semana de treinos e preparativos para um pro junior que rolou nas ondas de Supertubos. E tivemos a sorte de ver, em uma semana, um dia épico. Foi impressionante ver os juniors europeus se jogando nos buracos cavernosos. A onda é muito pesada e difícil de ser surfada, com muitos tubos com saídas impossíveis, mas a molecada assim mesmo botava pra dentro, não sei se motivados pra sair na foto ou por pura adrenalina de poder andar lá dentro, metro a metro, antes de serem engolidos pela onda que explodia contra a bancada de areia. Muitas pranchas quebradas e muita felicidade na garotada. Franceses, portugueses, ingleses e espanhóis desafiavam os enormes tubos de Supertubos. 

Minha última trip a Supertubos foi este inverno, vi um bom swell anunciado na web, fiz algumas chamadas, e ao dia seguinte já estava "on  the road"  com destino a Peniche, acompanhado de três surfers. 

A viagem demorou 10 horas de carro até chegarmos em Peniche. Uma viagem linda com saída do norte da Espanha, cruzando as verdes montanhas da Cordilheira Cantábrica, para depois percorrer as extensas e áridas planícies do centro da Península. Ali, as estradas são intermináveis retas, e tem que manter a calma para respeitar os limites de velocidade. O melhor é curtir o visual e ir parando nas inúmeras cidades. Uma das paradas obrigatórias é Salamanca, cidade universitária por excelência, e muito bonita.

Fora do verão é muito fácil encontrar alojamento em Peniche, e no inverno então, bota fácil nisso, desde hotéis, pensões e casas privadas que as senhoras portuguesas alugam por dias. Um dos integrantes da trip, Guillermo Alonso, já tinha o endereço de uns apartamentos no Baleal, assim fomos direto pra lá, pois depois de um longo dia de viagem de carro, só pensávamos em dormir. Esse dia não esquecerei, pois foi marcado pela trágica notícia da morte de Andy Irons, um choque para todos.

No dia seguinte acordamos bem cedo e nos dirigimos a Supertubos. Ao chegar na praia, alucinamos com as ondas. Estava enorme, muito mais que o previsto! Tinha apenas alguns bodyboarders no pico. Além de grande, estava fechando bastante. É bem perigoso, então resolvemos não arriscar e esperar condições mais favoráveis.

Outra coisa que não comentei nesta matéria é que Supertubos é uma onda onde a maioria de seus locais são bodyboarders, são muitos e se jogam nos tubos, então o negócio é ir com muito respeito e demonstrar que sabe entubar, assim vai sobrar onda pra todo mundo.

Com condições tão exigentes preferimos esperar até a tarde para ver se o mar dava uma baixada. E foi o que aconteceu. De tarde quebraram altos tubos, bem mais colocados, e com um bom tamanho.

Entramos todos na água, praticamente sozinhos, apenas acompanhados por uns australianos que vinham cruzando a Europa em direção ao Marrocos, e resolveram experimentar os enormes tubos de Portugal. E não decepcionaram, foram os melhores nesta tarde espetacular.

Pela noite, para comemorar, fomos comer nos deliciosos restaurantes da cidade. O prato principal é o peixe, muita variedade e a um ótimo preço. Não posso deixar de falar sobre as padarias portuguesas, tentação para os mais gulosos - os docinhos portugueses são realmente uma delícia.

No dia seguinte o mar tinha baixado bastante e uma neblina intensa impediu o surf. Na espera, aproveitamos para tomar um café da manhã numa típica padaria local. Os fatores maré e vento são bem importantes, e as melhores condições para a onda de Supertubos é maré cheia e vento terral. 

Passada a neblina, as condições tinham mudado e já não havia tubos, só rolava uma esquerda de um metrinho para manobras que não era o esperado. O nome fala tudo - Supertubos, não super manobras. Chegou a hora de vazar.

A trip valeu a pena, boas fotos e três dias de evasão da rotina numa terra hospitaleira. Voltamos para Espanha satisfeitos e com uma ideia na cabeça. Voltar o quanto antes para a terra dos tubos.


 Matéria publicada na PARAFINAmag Edição 38
 

 



19/05/2012 00:00:00
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