Espírito de Aventura
CANADÁ
por Christian Moutinho & Rodrigo Oliveira

 

O Canadá certamente é um surf spot tão improvável quanto o Alasca, Sibéria ou o Polo Norte, no entanto o surf está lá e é muito praticado, mesmo sob temperaturas baixíssimas. Os principais picos estão localizados geralmente em locais de difícil acesso e para onde a viagem, por si só, é uma grande aventura. Norte de Vancouver, para onde esta trip nos leva, é um local ermo, onde nada existe além de montanhas, uma enorme faixa intransponível (por chão) de florestas cheias de lobos e dos perigosos e imprevisíveis ursos pardos e... Um pico de surf sem nenhum crowd e ondas perfeitas.

Se acordar em hotéis luxuosos com café da manhã e barquinho pra te levar ao pico, serviçais para todos os lados e mordomias a perder de vista não são para você, o Canadá está aí. Numa trip como esta, estarás dormindo sob as estrelas, jantando ao redor de uma fogueira (que também serve para espantar os animais selvagens), acordando e dormindo ao som único da natureza e coroando seu dia com um surf gelado, sim, mas em completa paz e comunhão com a mãe natureza e sem nenhum crowd para atrapalhar ou gritar. Apenas você e os espíritos dos antigos índios que ocupavam essas regiões.

Abaixo segue o relato do surfista Christian Moutinho, radicado no Canadá e nosso “guia” por esta aventura inesquecível.

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Foram 6 dias de aventura em um lugar extremamente distante de tudo.

Acordei numa terça-feira de manhã, sol nascendo e temperatura beirando os 26 graus, coisa que não acontece muito durante o ano no West Coast do Canadá, somente nos meses de verão, porém, nestes meses as ondas são escassas. Chequei a internet, como de costume, para dar uma olhada no swell e ver se partiria para algum lugar na América Central ou Indonésia, pois havia chegado do Tahiti há duas semanas e já estava mais que fissurado novamente para entrar na água e surfar boas ondas.

O swell parecia estar com bastante força no Hemisfério Sul e me parecia que iríamos pegar uma rebarba do mesmo, aqui por cima, na costa norte do Canadá. Liguei para alguns amigos e fizemos todo o planejamento de como chegar a essas ondas ao norte de Vancouver, que por sinal, quebram com muita qualidade em swells de sul e grandes swells de norte durante os meses de inverno.

Sentei no meu laptop, fiz toda a parte de logística da trip para partirmos no dia seguinte, pois a viagem seria longa. Longas horas de carro até uma cidade localizada mais ao norte para encontrarmos com alguns conhecidos que nos esperavam com 2 hidroaviões para levar as pranchas, mantimentos e a galera que ia surfar e também fotografar a viagem. Colocamos todas as pranchas em um avião com 4 pessoas e no outro avião, toda a comida, material para acampar e alguns outros mantimentos, como uísque e umas garrafas de vinho (os aviões só carregam uma certa quantidade de peso, então para levar umas  boas cervejas ficaria muito pesado).

Enfim, tudo acertado e decidimos ir em direção aos picos que nos dias  anteriores eu havia marcado no mapa, e também procurado no famoso google earth.com mais a ajuda do meu oceansearch (relógio da Rip Curl com bússola), ficou bem prático buscar a direção e o acesso entre o voo por entre as montanhas até chegarmos sobre o oceano.

Por fazer muito calor e a temperatura da água ser bastante fria (12 graus) muito fog ainda prevalecia sobre o mar dificultando o pouso, sendo assim, buscamos outra alternativa, que era pousar em um lago bem perto e esperar  o fog se dissipar.

Aterrisamos e levantamos umas 3 vezes até que então a visibilidade ficou  alucinante e lá de cima já podíamos ver as diversas bancadas de coral com algumas linhas de onda. Achamos uma baía calma com um point break perfeito onde aterrisamos os hidroaviões, descarregamos as pranchas e etc., e marcamos com os pilotos um período de 5 dias para que os mesmos  voltassem ao local onde haviam nos deixado para nos pegar.

À beira de um rio montamos acampamento e bem a nossa frente ondas de 3 a 4 pés quebravam perfeitas sem nenhuma alma viva por perto, aliás seres  humanos, pois ursos, lobos entre outros animais, eram presença constante no visual.

Foram 5 noites acampados no meio do nada, com ondas variando entre 3 e 4 pés, tamanho suficiente para nos divertirmos sem a presença do crowd  comum nas praias das grandes cidades ou em destinos de boa reputação no  meio do surf.  

Nesta baía onde ficamos, existiam 4 ondas que quebravam em diferentes  condições. O point break de direita com uma extensão de 300 a 500 metros  de onda estava bem na nossa frente e a dificuldade era sair dali para explorar as outras ondas, pois esta direita era tão longa e perfeita  como ondas que eu já havia surfado em lugares como Indonésia, Austrália,

El Salvador, entre outros. Um outro point perfeito estava do outro lado da  baía. Desta vez, era uma esquerda um pouco mais curta, porém com boas sessões de tubo. No inside também duas ondas, uma esquerda e uma direita, ambas um pouco menores, quebravam em uma bancada bem rasa proporcionando bons tubinhos.

Os dias e noites foram recheados de aventuras. Confrontos com ursos, para não roubarem nossa comida, caminhadas, fogueiras, uma bebida quente para entorpecer e espantar o frio, passar o tempo e esquecer dos animais e uivos de lobos que, às vezes, nos atormentavam durante a noite, isso sem falar das imagens paradisíacas em pleno Hemisfério Norte.

Com certeza uma das melhores viagens nestes últimos meses.

 

Matéria publicada na PARAFINAmag Edição 28



19/05/2012 00:00:00
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