O Principado das Astúrias, província localizada na costa Noroeste da Espanha, a Leste da Galícia e a Oeste da Cantábria, é uma estreita faixa montanhosa de litoral cheia de falésias que se debruçam verticalmente sobre o Atlântico Norte. Toda a província é um misto de montanhas verdejantes, água azul cristalina, cavernas pré-históricas, Dolméns da idade do bronze, resquícios celtas, catedrais pré-romanas, e ondas de todos os tamanhos e qualidades. As Astúrias são diferentes de qualquer outro lugar na Espanha. E é isso que você descobrir agora.
Bem-vindo ao “Principado das Ondas”.
Contexto histórico/geográfico:
O Principado das Astúrias é uma comunidade autônoma uni-provincial situada na costa setentricional da Espanha, que possui um território de 10.603, 57 m² e faz fronteira a Oeste com a Galícia, ao Norte com o Mar Cantábrico, com a Cantabria ao Leste e ao Sul com a Província de León. As Astúrias têm cerca de 1.100.000 habitantes e recebe o título de Principado pelo fato de que o herdeiro da coroa real espanhola ostenta o título de Príncipe das Astúrias.
A capital asturiana é a cidade de Oviedo, no entanto é Gijón a cidade mais densamente povoada. Anteriormente, o Principado era formado pela união das “Astúrias de Oviedo” e das “Astúrias de Santillana”. Em 1883, houve o que ficou conhecido como a “divisão” de Javier de Burgos e a antiga Comarca de Oviedo se converteu em província, absorvendo parte das Astúrias de Santillana e se integrando à Província de Santander.
Passado (e presente) Histórico:
As Astúrias são consideradas uma comunidade histórica e seguem um estatuto próprio de autonomia. O estatuto rege que seu governo está a cargo de um tipo de governo medieval chamado de “Junta Medieval do Principado”, fundado em 1388, como consequência de assumir o título de Principado por ordem do Rei Juan I de Castilla. O Principado também, a exemplo de outras partes da Espanha (como Catalunha e País Basco, por exemplo), possui uma lingua própria, o asturiano ou bable, que mesmo não sendo reconhecida oficialmente, possui o status jurídico semelhante ao oficial.
Paraíso natural, cultural e gastronômico:
Oviedo é o epicentro geográfico, político, cultural e empresarial de um local conhecido em toda a Europa pela singularidade e grande beleza de suas paisagens naturais tão agrestes e cheias de contrastes, bem como, por sua riqueza histórica e arqueológica.
De Oviedo, pode-se chegar aos locais mais interessantes em pouco tempo e com relativa facilidade. As praias de Gijón e a comarca de Avilés estão a cerca de meia hora. Llanes fica a uma hora e a bela costa Ocidental, apenas um pouco mais longe.
O Museu Jurássico de Astúrias (MUJA) dista de Oviedo apenas 60 minutos seguindo pela auto-estrada do Cantábrico, e é uma das principais atrações dessa parte, que possui os mais antigos registros paleontológicos da Espanha.
O que falar da gastronomia? Rica e deliciosa, a cozinha asturiana o deixará mais feliz a cada refeição. A carta de vinhos é excepcional, como, aliás, é comum a todo o país.
*(observe as “Dicas”)
Natureza Rica e Histórica:
Nas Astúrias, a história não é vista apenas em museus, mas em todos os lugares. Para o viajante aventureiro um giro pelas paisagens pode se transformar numa aula de história a céu aberto, haja vista a grande quantidade de ruínas, castelos, catedrais, Dólmens (estruturas criadas na idade antiga pelo povo Celta e Druída), além de cavernas pré-históricas e parques de fósseis de dinossauros.
As atrações naturais estão por todos os lugares, desde as faixas ao longo das belas estradas que cortam o Principado, até os diversos parques naturais existentes na província, todos a poucas horas de distância de onde quer que se esteja. O Bosque de Muniellos, o Parque de Redes, o Parque de Somiedo e o sensacional Parque dos Picos de Europa com suas belas montanhas, são lugares mais que recomendados para os amantes da natureza de visita às Astúrias. Todas essas atrações estão a mais ou menos 2 horas de Oviedo e, com toda a certeza, são excelentes pedidas para aqueles que curtem aventura e natureza, se interessam também por programas fora do litoral, ou apenas para os interessados em aproveitar os períodos de mar flat.
História do Surf nas Astúrias:
O Principado também é o lugar ideal para surfar em todas as épocas do ano. Com picos para todos os gostos e uma costa recortada por baías e belos pedaços de praias escondidas no sopé de falésias íngremes, o surf asturiano é imprevisível e pode agraciar o surfista viajante com ondas desde os 4 pés até um big surf de respeito para os big riders e praticantes do surf rebocado (Tow In).
Como em todos os lugares no mundo, a cultura surf local possui sua própria história, rica em lendas, mitos e superstições. Uma das mais famosas é a do “Espumero”, que conta sobre um irrequieto garoto que usava seu corpo para surfar as ondas indo até a areia junto com a espuma. Essa historieta se dá como explicação ao fato do bodysurf ser muito disseminado entre as pessoas, sendo que lá é chamado de “surf de cuerpo libre”, traduzido em bom português como “surf de corpo livre”.
1960, O Pontapé Inicial:
Apenas em 1960 é que o surf propriamente dito passaria a fazer parte do dia a dia, com a introdução do esporte por Amador Rodriguez e Felix Cueto, dois gijoneses (moradores de Gijón), que fizeram a primeira sessão de surf da qual se tem registro na Praia de San Lorenzo e convertendo-se nos principais patronos do esporte no local. A partir daí, inicia-se a criação dos primeiros “Clubes de Surf”, o Peñarrubia e o Grupo de Cultura Covadonga, ambos sediados na cidade de Gijón.
Em 1967, Peter e Robert Gulley (ambos australianos) se fixam em Tapia de Casariego e iniciam a cultura surf local, e pouco depois, em 1969, é criado o Clube Bajamar nesta mesma localidade, dando um maior gás na cultura surf local. Finalmente em 1971, acontece “O Campeonato da Espanha” em Tapia de Casariego, pela primeira vez, e no ano seguinte acontecem provas válidas para o campeonato nacional no mesmo local/berço do surf asturiano e na cidade de Gijón.
Cultura Viva:
Nos dias de hoje, a cultura surf asturiana é viva e respira a plenos pulmões. Não é muito difícil de ver pranchas e surfistas desde a praia de “Escalera 10” até San Lorenzo, ainda mais agora, já que há etapas válidas pelo campeonato mundial, europeu e espanhol nas praias do Principado. A fama e cultura surf vibrante se dá pela variedade de ondas que sua costa proporciona. Seja lá qual seja o seu tipo de surf, desde as pranchinhas, longboard, bodyboard, SUP, Tow in e etc., estarás bem servido.
Melhor Época:
A melhor época para uma surf trip pelas Astúrias (e também pelo Cantábrico) é no outono, ou seja, de setembro até o Natal. Depois disso o bicho pega, ficando muito frio, mas para os mais raçudos até que dá pra agüentar, pois não abaixa dos 5 graus. A temperatura média no inverno é de uns 10 graus durante o dia. O problema é que os swells já não entram tão limpos em pleno inverno e rola mais vento. Realmente, pra quem vai do Brasil buscando boas ondas e um pouco de calor (de preferência) o conselho é aproveitar o outono, onde as primeiras ondulações entram limpas e os ventos alísios (vento terral) são mais constantes.
Principais spots:
Das mais de 200 praias que margeiam a costa asturiana, algumas são mais conhecidas e concorridas, enquanto outras são mais secretas e escondidas, podendo ser acessadas apenas por trilhas ou estradas secundárias. Não entregaremos todos os caminhos das pedras, do contrário perderia graça a sua aventura, no entanto, daremos algumas dicas e informações sobre alguns dos melhores picos:
Rodiles (Villaviciosa). Um dos melhores picos da Espanha, Rodiles oferece diferentes possibilidades, de acordo com as marés. Com a maré baixa, a ponta Oeste da bancada de areia produz potentes, grandes e extensas esquerdas capazes de “desenhar” tubos tão fantásticos que faz com que muitos a comparem à Mundaka. Já com a maré alta, surgem muitos bons picos com diversas ondas. A praia se encontra numa reserva natural de rara beleza. Sua semelhança com a famosa esquerda vasca não advém apenas de sua perfeição e força, mas do fato de que também é formada pela desembocadura de um rio.
Playa de La Grande (Tapia de Casariego). No extremo Ocidental da costa asturiana se encontra Playa de La Grande, que foi nada menos que um dos primeiros palcos do desenvolvimento do surf no Principado. Em “La Grande” existem dois picos distintos: um é um beach break com direitas e esquerdas, e o outro um point break de esquerda com ondas de média extensão e bastante fortes. Esta praia pequena, quando com boas condições, proporciona surf de excelente qualidade. Não é à toa que é palco costumaz de campeonatos europeus.
San Lorenzo (Gijón). Praia urbana e concorrida, com grande localismo, é uma das maiores praias das Astúrias com cerca de 1,5 km de extensão. Ao largo da mesma praia se firmam diversos picos de direita e esquerda e nos bons dias funciona com todas as marés, com o detalhe de que no preamar formam-se alguns “backwashes”. No lado Oriental, na maré secante ou seca, rola uma onda extensa e muito divertida com muitas sessões. As “Escaleras” 9 e 10 são pontos muito tradicionais e conhecidos de encontro de surfistas do Principado, inclusive com a sede do clube de surf local.
Salinas y El Espartal (Castrillón). Situados a Noroeste, como a maioria dos melhores spots asturianos, esta é considerada (mais uma) das melhores praias para surf local. Além de ser uma praia de largas proporções, existe uma infinidade de picos de direita e esquerda por todos os lados. No lado de “El Espartal”, a Oeste, se produz algumas direitas “muy buenas”. Esse spot segura ondas desde os 2 pés até os 12 pés. Mas não espere facilidade, pois por localizar-se próxima a algumas vilas e pequenas cidades é uma praia bastante concorrida e, portanto, palco de localismo.
Playa España (Villaviciosa). Por estar localizada ao Norte, os ventos mais favoráveis são Sudoeste e Sudeste, e seu fundo é formado por uma laje plana de rochas e areia. Seu melhor momento é a meia maré e produz ondas de muito boa qualidade.
Verdicio (Gozón). Este pico está situado a Noroeste e em boas condições fabrica uma esquerda muito potente e com sessões bem “secas”. Vale a pena ficar ligado para evitar se machucar e pegar os melhores tubos.
Xagó (Gozón). Não precisa de muita ondulação para funcionar, o que faz com que esse pico seja funcional tanto no verão como no inverno. Por ser muito aberta, um pouco de swell já funciona bem. Em ambas as margens da praia rolam ondas muito boas na maré baixa ou na secante. Por estar próxima de povoações e núcleos de surf, como Avilés e Salinas, tende a ser muito frequentada, concorrida e portanto crowdeada.
San Antolin (Llanes). Praia muito aberta e encravada a Noroeste. Suporta grandes ondulações e se pode surfar boas ondas tanto na cheia quanto na maré seca e intermediárias. Os melhores ventos são os vindos de Sudeste e Sudoeste. A boa noticia é que não é muito comum ver gente surfando esse pico, apesar das ondas serem reconhecidamente muito boas, quando as condições ajudam.
Santa Marina (Ribadesella). Esta praia urbana, que está orientada a Noroeste, se encontra abrigada de todos os ventos, exceto o Norte. Aguenta grandes ondulações e possui vários picos. Por ser uma praia de tradição, sempre se encontrará gente na água em todo o verão e inverno (apenas os big riders).
Vega (Ribadesella). Mais uma praia aberta localizada a Noroeste. Sob boas condições produz ótimas esquerdas e direitas, mas não segura ondulações grandes. É o que se pode chamar de “praia de verão”.
Peñarrubia (Gijón). Boas ondas dependendo das marés. Peñarrubia aguenta muito swell e é uma praia de fundos de areia com algumas lajes nos cantos. O reef plano promove boas ondas e não muito perigosas.
El Mongol (Gijón). Esse pico produz uma boa direita com diferentes sessões sempre que entra um big swell. Seu fundo de rochas faz com que as marés sejam muito importantes tanto para a qualidade da onda quanto para o seu nível de perigo. É preciso conhecimento local para escolher a melhor e mais segura maré para surfar. Mas é uma onda de alta qualidade quando funciona.
Playa de Cueva (Valdés). Orientada a Noroeste, produz boas esquerdas e direitas na maré baixa e média maré. É um beach break bastante aberto e suscetível a swells de todos os lados. Os melhores ventos são o Nordeste e o Sul.
Otur (Valdés). Conhecida também como “Brutal Beach” ou “Praia Brutal” em português, é uma pequena praia com picos de direita e esquerda que não aguentam swells muito grandes, mas ainda assim proporciona uma onda bem forte. Os ventos de Sudoeste são os melhores.
Frexulfe (Navia). Como todos os melhores spots asturianos, está localizada no Noroeste. Ondas potentes e muito fortes com boas sessões. Surf de alto nível neste pico.
Playa de Navia (Navia). Ao Norte, esta grande praia pode produzir muitas possibilidades, contudo, não suporta muita ondulação. No meio da bancada de areia se firma uma “barra” que levanta ondas de excelente qualidade para a esquerda e para a direita. Na sua vertente oriental existe um pico chamado “El Moro” que, quando as melhores condições do mar e vento confluem, produz ótimas direitas e funciona em todas as marés.
Peñarronda (Castropol) . Situada ao Norte, produz ondas com muita qualidade, possui picos de direita e esquerda e funciona também com as marés alta e baixa, no entanto é melhor com as marés médias.
San Martin (Llanes). Um dos destaques é a Praia de San Martin, que fica a Oeste da cidade pesqueira de Llanes, que por sua vez está no lado Leste das Astúrias. San Martin só pode ser encontrada ao seguir-se por uma trilha à pé da Vila de Celorio. A praia é uma maravilha de areia entre falésias magníficas e possui vários picos de beach break em meio a formações rochosas enormes. Recebe ondulações de diversas direções e quase não há localismo, mesmo possuindo uma boa quantidade de locais apaixonados por seu pico. De fato, no Norte da Espanha (como em muitos outros lugares do mundo), o localismo normalmente está ligado à falta de educação do visitante e (ou) uma atitude arrogante e desrespeitosa. Seja um bom visitante e o localismo não existirá para com você.
TOW IN e BIG SURF
Existem muitos picos de outside que cada vez mais estão sendo explorados pelos viciados na “big adrenalina” do surf rebocado. No entanto, como em todos os lugares do mundo, esse tipo de surf só ocorre em poucas épocas e com a confluência de muitos fatores, além de ser uma modalidade apenas para uns poucos especializados e capazes desse tipo de aventura sobre pranchas.
Por serem picos secretos, as imagens estão à disposição, mas os nomes e localizações terão de ser encontradas sem a nossa anuência. Se você quer testar suas habilidades nas maiores manifestações oceânicas, GO FOR IT! Viaje, descubra e se jogue.
O surf é farto no Principado das Ondas, descubra os picos, desbrave os caminhos, e se divirta muito. Boas ondas! Ou devo dizer “Buenas Olas”?
Hasta Luego, Surfero!
Dicas - por Cedric de Barros:
“É uma viagem perfeita pra trazer a namorada ou esposa. Paisagens deslumbrantes, muita história, gastronomia, teatros, festas populares... Enfim, uma surf trip bem cultural os espera nas Astúrias.”
“Um dos pratos culinários mais conhecidos é a “Fabada”, muito parecido com nossa feijoada, porém feita com feijão branco e, em vez de acompanhar com arroz, eles acompanham com batata cozida e muita cidra, bebida tradicional local.”
“O povo asturiano é muito hospitaleiro, mas os surfistas em certos spots como Rodiles, por exemplo, são bastante chatos. Contudo, se você chegar com respeito e tranqüilidade conseguirá fazer a cabeça sem problemas.”
“Desde Madri existem vôos nacionais para o aeroporto das Astúrias. Não esqueça de alugar um automóvel, isso é muito importante, pois fora dos núcleos urbanos o transporte público é muito lento e escasso.”
Texto: Rodrigo F. de Oliveira
Depoimento e fotos: Cedric Paes de Barros
Matéria publicada na PARAFINAmag Edição 26