Troquei uma ideia com CH Straatman, o ensandecido baixista da Banda Retrofoguetes. Falamos de ondas, bodyboard, história do underground baiano e muita música. Confra a entrevista e ouça o som de uma das melhores bandas do país. Abra os ouvidos!
Primeiro, como você descreveria o som e o estilo da Retrofoguetes para quem ainda não conhece o som?
Eu diria que é uma banda de rock instrumental, cuja maior vertente está na Surf Music dos anos 60 misturado a uma série de influências que vão desde música de raíz mexicana à bolero, swing jazz, polka entre outros.
Muita gente não sabe da história da banda e dos componentes. Vocês vieram de uma geração que iniciou o boom de música alternativa e rock do Estado. Conta um pouco aí...
Viemos de bandas que tinham um trabalho reconhecido perante a mídia e o público. Rex (baterista) e Morotó Slim (guitarrista) eram integrantes dos The Dead Billies, uma super banda que atuou fortemente na cena durante os anos 90. O trabalho dos caras era realmente incrível. Tiveram dois discos lançados: Don´t mess with... The Dead Billies e o Heartfelt Sessions. A banda acabou em 2001 e em 2002 foi iniciada a saga dos Retrofoguetes. Eu comecei com uma banda de funk rock experimental com Emerson Borel (Úteros em Fúria) e Cândido Sotto (Cascadura) chamada Blacktrunk. Essa banda foi fundamental para minha formação como músico. Emerson e Cândido levavam a coisa muito a sério e me ensinaram muito. Acho que Cândido tem algum registro disso. Depois fiz parte da Dois Sapos e Meio, que era um funk metal psicodélico com pitadas de hardcore e hip hop. Esta banda tinha um público muito grande em Salvador e foram lançadas várias Demos. O melhor registro é o disco Obrigado Vasquez. Desde então tenho trabalhado com os mais diversos artistas. Joe (baixista dos Dead Billies) fundou a Retro junto com Morotó e Rex. Na metade de 2002 ele saiu da banda para tocar com Pitty e eu fui convidado para entrar em seu lugar. A partir daí passei a integrar, compor e gravar com o grupo. Nosso primeiro disco Ativar Retrofoguetes foi lançado em 2003 pelo selo goiano Monstro Discos e estamos com um novo saindo do forno.
CH, você me disse a uns dias que foi bodyboarder. Ainda acompanha algo sobre o esporte?
Comecei a surfar ainda criança, com 10 anos de idade. Surfei praticamente todos os dias até os 26, então por pouco não se tornou uma profissão. Não surfo mais, mas ainda acompanho alguns campeonatos e ainda babo quando vejo um bom swell. Semana passada estive pesquisando equipamentos, dei uma caída há uns dois meses atrás. Sei lá, acho que qualquer hora dessa volto a pegar umas ondas...
Sobre o último disco, o que você acha que mudou na banda como um todo, seja na postura ou no som?
Acho que estamos mais intuitivos. As composições estão cada dia melhores, nossa química é cada dia maior e estamos mais ambiciosos em relação aos desafios artísticos. Até fizemos arranjos para uma big band numa música chamada “Maldito Mambo”! (junto com o maestro Letieres Leite). Essa música esta concorrendo no Festival da Educadora FM e pode ser ouvida junto a programação da rádio.
Quem é a sua maior influência na música?
Gosto muito de ter atenção para com as composições, então tenho um sem número de grandes influências. Compositores como Ennio Morricone, Charles Mingus, Tom Jobim, outros. No contrabaixo elétrico, caras como Jaco Pastorius, Nico Assumpção, Flea, Stanley Clarke e Bootsy Collins são incríveis. No acústico, caras como Lee Rocker e Pete Turland.
O que em sua opinião falta para o mercado musical do Estado se desenvolver?
Estrutura e democracia dos meios. Quando falo em estrutura quero dizer casas de shows. Seria bom também termos festivais que não tivessem vínculos de monopólio com empresas que não sacam nada de arte e assim poder colocar a nossa cidade no circuito dos grandes shows internacionais e valorizar nossos artistas que tem um trabalho mais ambicioso. Temos ótimos estúdios de gravação e excelentes profissionais, além de músicos fora de série. Democratizando os meios podemos mostrar o que a Bahia tem de verdade, que, aliás, produz artistas incríveis há muito tempo, mas passou por um momento de monocultura que foi arrasador e causou um enorme empobrecimento cultural, até os novos artistas de MPB baianos se tornaram undergound!
A Retrofoguetes está de contrato ou permanece (como parece ser de praxe entre as bandas) no esquema independente?
Continuamos independentes. Hoje em dia isso é ótimo, pois conduzimos nossa carreira como bem entendemos.
Como foi que o seu envolvimento com o contrabaixo derivou o contato com o mundo da música (como trabalho)?
Minha mãe tinha um violão em casa... Criança já gosta dessas coisas, então comecei a reproduzir as coisas que passavam na rádio. Sempre tive uma atenção especial àquele som melódico grave que envolvia as músicas como uma bolha. Não demorou muito para que meus amigos começassem a dizer que eu tinha talento pra coisa. Depois comecei a ouvir músicos que eram profissionais me dizendo o mesmo. Passava muitas horas tocando e depois comecei a estudar música. Os convites para tocar começaram e não pararam até hoje! (risos)
Quais as melhores histórias e as piores roubadas que a banda já passou?
Tem uma bem engraçada: Certa feita, fomos convidados para tocar em Recife e eu estava à frente nas negociações. De repente o contratante queria nos pagar o cachê com maconha e com mulheres!!! Ficou complicado de o cara entender que somos casados e tal... Além de profissionais. Tive que fazer linha dura pro cara sacar que além de tudo isso é um trabalho, mas não sem antes ele sair comigo dirigindo em alta velocidade e gritando pelas ruas do Recife com um baseado na boca. Logo ficamos amigos e ele entendeu a parada.
Dá pra viver como músico na Bahia sem tocar axé ou pagode?
Claro, somos ricos em música! Agora o sujeito tem que estudar seu instrumento, ter articulação e correr atrás das oportunidades. Nada contra quem toca estes estilos, mas é bom ter outras opções e poder sobreviver delas.
Próximos shows à vista?
Sempre que temos novas datas divulgamos no www.fotolog.com/retrofoguetes
Qual o futuro que a Retrofoguetes enxerga para si mesma?
Uma banda que construiu uma carreira com dignidade, muitos desafios artísticos, grandes composições, bons shows, bons discos... Enfim, que quer deixar uma marca nessa história toda!
Como funciona o processo de composição da banda?
Às vezes eu trago umas músicas, outras Morotó, Rex traz uma batida nova ou uma idéia e então trabalhamos em cima delas. Outras vezes as músicas surgem numa jam num ensaio qualquer. Ou então fazendo som num quarto de hotel durante uma seqüência de shows e depois de trabalharmos bem os temas. Escolhemos os melhores para gravar e tentamos contextualizar aquilo dentro do nosso universo, esteticamente falando. Contextualizar não é nada fácil, pois fazemos composições bem variadas. Mas é um exercício e tanto trabalhar um conceito.
Há algo que gostaria de dizer nesta entrevista que não foi dito?
Há, mas é melhor eu ficar calado pra não comprometer o entrevistador com seu maior patrocinador pessoal; as empresas SHOE GLUE ENTERPRISES!! (Risos)
Uma mensagem para os leitores da Parafina?
Tomar caldo nunca é bom, mas surfar em mar pequeno não é lá muito emocionante, a não ser que esteja perfeito. É melhor tomar um caldo num dia de surf num mar grotesco com ondas incríveis que ficar nessa merrecagem pescando. Deveríamos reivindicar ao governo do Estado que mandasse importar umas ondas de Pipeline pra gente!!!
Nada de merrecagem pessoal... Bom surf para todos!! Certas coisas são melhores na memória...
Obrigado CH
Matéria publicada na Parafina Mag Edição 05