O design gráfico tem uma relação muito próxima com a arte, apesar do uso de computadores, e os profissionais da área estão cada vez mais buscando o conhecimento antigo para alimentar ferramentas modernas e movimentar a arte.
O artista Rafael Escudeiro é criativo e o surf está enraizado em sua alma desde o primeiro contato com o esporte, assim como a arte. Seu trabalho é original, fluido e orgânico, revelando suas percepções do surf, paisagens e praias, enfatizando-os com as cores que sua imaginação captam, revelado através de seus traços. Rafael está na busca para encontrar seu caminho e entendimento do que é arte, e ele próprio nos conta o processo.
(matéria publicada na PARAFINA #39)
O paralelo entre arte e design
Quando estava terminando o colégio, ainda não sabia qual curso fazer na faculdade. Se tivesse seguido aqueles testes vocacionais teria feito Engenharia Civil. Um dia na praia conversando com dois amigos sobre a faculdade, eles me disseram que iriam fazer Design de Produto. Fiquei mais interessado em design, pois sabia que podia trabalhar em marcas de surf. Acabei fazendo Design Gráfico na Belas Artes e hoje trabalho no Ibrasurf, onde consegui unir minha profissão com a minha paixão pelo esporte.
Apesar do trabalho de design ser relacionado ao surf, não é possível ter tanta liberdade de criação, pois no design é preciso pensar no conceito do projeto, no público-alvo, clareza e hierarquia de informações, entre outras coisas. Já na minha arte eu não me prendo a nada, crio pensando no meu gosto pessoal e não me preocupo se o trabalho vai ou não agradar o público.
Processo de criação
Não sigo um processo exato. No dia que estou com tempo e inspirado, eu vou desenhando. Às vezes vejo um desenho ou uma foto que me dá uma ideia de um traço novo, faço uma rabisco rápido e depois, com calma, faço o desenho baseado neste rabisco. Na maioria das vezes começo desenhando uma onda e depois vou pensando em alguns elementos que gostaria de ilustrar. Penso em elementos da natureza que cercam o ambiente do surf e ligadas ao clima tropical, como alguns animais e plantas. Não penso em todos os elementos e formas que o desenho vai ter, vou criando um por um e deixando o desenho fluir sozinho. A escolha das cores vai de acordo com o elemento de cada desenho. A natureza já oferece muitas "cores prontas", mas às vezes sou influenciado por cores que vejo nas ilustrações de outros artistas e em algumas roupas.
As formas: lápis e papel
Para criar as formas e os traços começo com lápis e papel, depois fotografo ou uso scanner e vetorizo manualmente através do programa Adobe Illustrator, arrumando alguns traços e criando outras formas também. Após esta etapa faço a pintura no Adobe Photoshop, criando cores e texturas. Em algumas ilustrações faço o fundo ou o preenchimento de algumas formas com tinta aquarela ou lápis de cor, que depois é scaneada.
A descoberta da tinta
Comecei a pouco tempo mexer com as canetas Posca. Sempre tive vontade de fazer desenhos com elas mas nunca tinha corrido atrás para comprar, pois para comprar uma quantidade razoável de cores e tamanhos é preciso investir uma grana. Gostei muito e fiz meu primeiro desenho com as canetas. Achei que é muito mais divertido e satisfatório o trabalho com as Poscas do que no computador. Por trabalhar o dia inteiro com design na frente do computador fica muito cansativo fazer também a Surf Art no computador. Vou começar a realizar alguns experimentos agora e fazer mais desenhos com a Posca e misturar algumas técnicas com a caneta e pincel, e também testar superfícies para a pintura, como madeiras e pranchas de surf.
A influência do design gráfico
Quase tudo influencia minha arte: design gráfico, design de produto, fotografia, moda, publicidade, ilustração, graffiti, arquitetura, tudo que nos cerca no dia a dia, e muita coisa que vejo na internet e em blogs de design. Vejo às vezes blogs de design onde existem muitos trabalhos de ilustração, com diversos estilos de desenho e combinações de cores diferentes.
Uma das minhas principais inspirações vem de fotografias que tiro quando vou surfar, fotos das paisagens, natureza, animais, vegetação, objetos, amigos. Muitos artistas que fazem Surf Art são referência pra mim, cada artista influencia de um jeito, alguns com formas, outros com elementos, outros com cores, outros com técnicas e materiais.
A fissura pelo surf
Acho que meu primeiro contato com o surf foi através de revistas de surf que meu irmão mais velho tinha, porém nenhum de nós dois surfava. Gostava de ficar olhando as fotos e encapava meus cadernos da escola com as fotos e os calendários das revistas.
Até 1997, ia para a praia somente nas férias e em algum feriado prolongado. No começo de 98, meus pais compraram uma casa na praia de Boracéia, a partir daí começamos a ir mais frequentemente para praia. Em um feriado no final do ano, meu primo que surfava de longboard me levou um dia para surfar com ele. A partir daí fiquei fissurado e queria de qualquer jeito uma prancha de surf e não parei mais.
Os primeiros rabiscos
Lembro que com uns 10 anos eu ganhei um estojo de lápis aquarela de meus pais e fiz alguns desenhos, um deles era um cara pegando um tubo. Antes mesmo de surfar, eu tinha cadernos encapados com fotos de surf cortadas de revistas e ficava desenhando os logotipos das marcas de surf. Acho que todos que retratam surf começaram assim, desenhando ondinhas no caderno durante as aulas do colégio.